Better Call Saul e Breaking Bad criaram a melhor cidade da história da televisão
Uma homenagem a Albuquerque: Como as montagens, rotinas e personagens eternizaram um cenário
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São 6:48 em Albuquerque, Novo México. No subúrbio, Walter White beija sua esposa, Skyler, e entra no carro para ensinar química no J. P. Wynne High School. Ele está entusiasmado com o assunto do dia, mas esse vislumbre de alegria será rapidamente aniquilado pelos estudantes e Walter terminará a aula tentando esconder sua frustração com a vida. Em outro bairro, Gus Fring abre o armário para escolher a gravata do dia. Elas estão arrumadas de maneira imaculada e, pensando no seu itinerário, o gerente do Pollos Hermanos acha melhor levar duas. Uma pode ser manchada de sangue. Em uma casa escura e bagunçada, Jesse Pinkman está indo dormir. A noite deve ter sido muito boa, mas ele não lembra de nada a não ser metanfetamina. Enquanto isso, num prédio de condomínio, Jimmy McGill e Kim Wexler escovam os dentes lado a lado. Ela está pronta para defender mais casos pro bono no tribunal. Ele vai vender celulares para traficantes.
Estamos dizendo adeus a Albuquerque. A cidade do Novo México continuará existindo na realidade, mas sua versão fictícia, eternizada por Breaking Bad, El Camino e Better Call Saul, encerrará seus 15 anos no ar. Ela é, possivelmente, o mais icônico cenário televisivo de todos os tempos. Claro, Nova York e Los Angeles já foram casa de milhares de séries, mas nunca um ambiente foi tão bem construído, explorado e detalhado como este. Sabemos as rotinas não só dos personagens principais das criações de Vince Gilligan e Peter Gould, como também de diversos “civis”, graças ao cuidado das séries de criar coadjuvantes memoráveis e, às vezes, nos surpreender colocando o foco em uma família qualquer. Um trabalhador cujo carro acordou com pneu furado porque Mike Ehrmantraut precisava assumir sua identidade, uma mãe solteira cujo filho seria preso se uma advogada não assumisse seu caso sem cobrar, e recepcionistas das mais diversas lojas e ambientes.
O desfecho vem no último episódio de Better Call Saul, que pode até passar boa parte de seu tempo nas cenas em preto-e-branco em Nebraska e Flórida. Há, porém, momentos em Albuquerque. É inevitável. Necessário. Lá, Gilligan e Gould estão em casa. Nós também.
Better Call Saul e Breaking Bad são séries obcecadas com processo. Rotina. Alguns de seus melhores feitos de fotografia e enquadramento vieram enquanto vimos o passo a passo de Saul/Jimmy (Bob Odenkirk) e Kim (Rhea Seehorn) preparando um de seus famosos golpes, ou o dia-a-dia de Walt (Bryan Cranston) e Jesse (Aaron Paul) cozinhando uma nova leva de sua metanfetamina azul. Que o mesmo olhar cauteloso e direção primorosa — combinando os visuais marcantes com cortes precisos e escolhas musicais inspiradas — são aplicados a momentos banais deixa tudo e todos com o mesmo ar de importância. Pedaços igualmente essenciais de um quebra-cabeça gigante. Instrumentos que, juntos, criam a melodia. Devemos prestar atenção em personagens se arrumando, um casal saindo para correr, o café da manhã de alguém que nunca mais será visto na série. Tudo isso é tão significante quanto os mais impactantes acontecimentos da trama.
Essas montagens adicionam textura. Elas nos enganam ao ponto de cheirarmos as cenas. Sentirmos o gosto de omeletes, panquecas e drogas. Já sabemos, até, os nomes que aparecem nos créditos quando estas ações quase ritualísticas são exibidas na abertura do episódio. Michael Mando, Giancarlo Esposito, Jonathan Banks, Patrick Fabian. Lá está Marshall Adams como diretor de fotografia, Skip Macdonald na edição, Ann Cherkis escrevendo. Michael Morris vai dirigir? Se preparem para mais um clássico.
A insistência de Gilligan e Gould nesses hábitos repetitivos e precisos é um contraste certamente intencional à maneira com a qual ambas séries são escritas. Planos são alterados costumeiramente, personagens se revelam como peças chave da obra, descobertas são feitas e improvisos precisam acontecer. Originalmente, Jesse ia morrer na primeira temporada. Kim era uma personagem irrelevante. Jimmy se transformaria em Saul muito, muito antes. A sala de roteiristas de ambas séries é famosa por propositalmente escrever o roteiro sem fugir de desafios e escolhendo, sempre, a melhor história. Nada é economizado ou guardado para o futuro. Se isso significar se colocar num beco sem saída? Ótimo. Agora eles precisam encontrar uma maneira criativa de fugir. Literalmente, como vemos Lalo (Tony Dalton) fazer em diversas ocasiões, ou metaforicamente, como quando Walter precisa desviar a suspeita de Hank (Dean Norris) falando “you got me" com um sorriso. Como suas criações, estes roteiros estão constantemente cercados. Se não há como se safar, a exemplo de Nacho (Mando), Howard (Fabian) e do próprio Hank, então o personagem morre.
Essas mortes, fugas e costumes acontecem em calçadas suburbanas, dentro de tribunais populados por rostos conhecidos, em laboratórios secretos e, não podemos esquecer, no deserto seco e letal. Quantos corpos foram enterrados lá? São estes lugares, seus habitantes e seus cotidianos — dos mais domésticos aos mais criminosos — que trouxeram Albuquerque à vida, coloriram a cidade com tons amarelos e um céu impossivelmente azul, empregaram em nossas mentes os sons de portas de carros e armas disparando e criaram imagens inesquecíveis. Pizzas em telhados, copos baleados, ursinhos de pelúcia em piscinas e ternos cafonas.
Que saudade.